mae-canguru-bebe-colo-shutter76058683Medo do vírus da zika fez com que encomendas de pílulas abortivas disparassem em sete países da América Latina, segundo um estudo publicado no “New England Journal of Medicine” nesta quarta-feira (22).

Uma organização que envia pílulas abortivas para mulheres que moram em regiões onde a prática é proibida ou restringida afirma que os pedidos vindos do Brasil, Equador e Venezuela teriam praticamente dobrado de volume. Já os pedidos vindos da Colômbia, Costa Rica, Honduras e El Salvador teriam subido entre 36 e 76%.

Uma das autoras do estudo é uma médica que mora em Amsterdã e é uma das líderes da Woman on Web, organização sem fins lucrativos composta por médicos dispostos a ajudar mulheres que desejam interromper a gravidez em países onde a prática não é permitida. Os dados usados no estudo partem dessa organização.

Mesmo com o aumento da demanda, o número de pedidos vindos da América Latina e do Caribe no período estudado foi pequeno: pouco mais de 2.300 em toda a região, 1.600 deles vindos de países onde as autoridades de saúde já haviam alertado para os perigos da zika.

O estudo analisou pedidos de comprimidos feitos entre 17 de novembro de 2015, quando a Organização Pan-Americana de Saúde emitiu um alerta dizendo que o vírus da zika poderia estar associado à epidemia de microcefalia no Brasil, e 2 de Março de 2016. Os números foram comparados com os pedidos dos cinco anos anteriores.

Os países onde as autoridades emitiram avisos sobre a periculosidade do vírus da zika têm cerca de 3,5 milhões de abortos por anos, segundo Gilda Sedgh, pesquisadora do Instituto Guttmacher, uma organização de pesquisa em saúde reprodutiva que não está envolvida no estudo.

Para ela, o aumento dos pedidos para a Woman on Web não é suficiente para dizer que o número de abortos na região tenha aumentado por causa da zika. “Os abortos feitos a partir dessas encomendas representam uma minoria muito pequena do total de abortos feitos na região”, diz. “Outra possibilidade é que a doença tenha dado mais visibilidade para a organização nesses países, gerando esse aumento”.

Sedgh, no entanto, concede que os números do estudo podem ser um sinal de alerta para o aumento da demanda por abortos gerada pelo zika.

Há anos o acesso ao aborto tem sido uma questão controversa em muitos dos países afetados pelo vírus da zika, mas o medo da doença chamou ainda mais atenção para o assunto.

Segundo um estudo recente, são feitos cerca de 6,5 milhões de abortos por ano na América Latina e no Caribe, a maioria deles ilegais, e estima-se que 750 mil mulheres por ano sejam tratadas com complicações causadas por abortos inseguros. Organizações feministas de todo o mundo há tempos pedem que as leis antiaborto sejam flexibilizadas.

A ONG Women on Web é um desdobramento da Women on Waves, que foi fundada em 1999 pelo médica Rebecca Gomperts. A ONG costumava levar um barco holandês até águas internacionais próximas a países onde o aborto era ilegal e fazer os procedimentos ali.

Quando o acesso a internet se tornou expressivo nos países pobres, Gomperts começou a fornecer mifepristone e misoprostol, uma combinação de pílulas aprovada pela Organização Mundial de Saúde para o aborto nas primeiras 10 semanas de gravidez, pelo correio.

A maior parte dos países que proíbem a prática, no entanto, interceptam as encomendas com essas pílulas. No caso do Brasil, por exemplo, o site avisa que a encomenda “muito provavelmente” será interceptada pela autoridades aduaneiras.

Tradução: Juliana Cunha

Via – Folha de São Paulo