Material viralizou nas redes sociais, gerando debates calorosos sobre a intolerância religiosa; conduta poderá ser enquadrada como crime

Mulher quebra santa em Botucatu.

Vídeo em que pastora de uma igreja evangélica de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) aparece quebrando a imagem de uma santa católica está gerando polêmica nas redes sociais e alimentando debates calorosos sobre intolerância religiosa. Nessa quarta-feira (11), o Conselho de Pastores do município emitiu nota condenando o ato. A Diocese de Botucatu ressaltou que trata-se de um caso isolado e pediu para que as pessoas não rebatam o mal com o mal.

As imagens foram divulgadas na terça-feira (10) e mostram a pastora em um terreno, em um ritual religioso, quebrando uma imagem de gesso de Nossa Senhora Aparecida com um martelo. Ao redor dela, algumas pessoas fazem orações, incentivando o ato.

“Quebra todo laço, quebra toda obra contrária”, diz um homem num trecho da gravação. “Esta obra que foi feita pelas mãos do inimigo, Senhor, agora está sendo quebrada Senhor meu Jesus e meu Pai, em nome de Jesus”, grita o homem em outro trecho.

No vídeo, o grupo de evangélicos fala que toda imagem e estrutura deve ser escorraçada e que “não aceita outro Deus a não ser o Senhor”. Com a imagem em pedaços, a pastora levanta as mãos para o céu e faz uma oração, ainda segurando o martelo.

Postadas inicialmente em uma rede social, as imagens foram rapidamente compartilhadas e viralizaram na Internet, recebendo duras críticas. Grande parte das mensagens condenando a prática da pastora vieram de membros da própria comunidade evangélica.

Nessa quarta-feira (11), em nota, o missionário Paulo Cruz pediu perdão aos católicos que se sentiram ofendidos e declarou que o Conselho de Pastores de Botucatu, onde atua como secretário, “não esteve envolvido e nem apoia nem uma prática de intolerância religiosa”.

O missionário ressaltou ainda que o fato trata-se de uma prática “isolada”. “Seguimos em pregar as boas novas de Jesus Cristo, o Salvador, de acordo com as sagradas escrituras, preservando acima de tudo o amor e o respeito ao próximo”, pontuou.

Até o fim da tarde, nenhum boletim de ocorrência sobre o fato havia sido registrado pela Polícia Civil. O JC apurou que a conduta da pastora pode ser enquadrada no artigo 208 do Código Penal, que prevê detenção de um mês a um ano e multa em caso de condenação.

Para Arquidiocese de Botucatu, fato foi ‘desrespeitoso’, mas ‘isolado’
Ele ressalta que, em maio, as duas religiões participam de debates e celebrações na “Semana da Unidade dos Cristãos”. “Eu creio que essa pastora, esse grupo de obreiros, fazem parte de uma denominação fundamentalista da igreja evangélica e, de uma maneira grotesca, apresentam uma falta de respeito, mas que não é a visão das denominações evangélicas daqui”, afirma.O padre Emerson Rogério Anizi, Pároco da Catedral Metropolitana de Botucatu, conta que a Arquidiocese Sant’Ana, que representa a comunidade católica na região, ficou “surpresa” ao tomar conhecimento do vídeo. “A nossa realidade com as igrejas evangélicas de Botucatu é muito tranquila. O relacionamento e o diálogo são muito abertos e de muito respeito”, diz.

Na avaliação do pároco, o grupo que aparece nas imagens comete um erro doutrinal “grosseiro” ao tratar da relação entre a Igreja Católica e as imagens dos santos. “A igreja católica não adora imagens, ela adora a Deus. A imagem, a vida dos santos, é venerada, é respeitada por vermos que homens e mulheres atingiram a possibilidade de viver o desafio cristão”, explica.

O padre faz um apelo para que as pessoas que se sentiram ofendidas com o ato da pastora não “rebatam o mal com o mal”. “Não é um ponto para entrar em brigas fundamentalistas e criar confusões, mas ver como um fato isolado. Foi desrespeitoso sim, mas nós não temos que retribuir na mesma moeda”, declara. “As religiões e espiritualidades sérias vivem na concórdia, mesmo quando têm pontos que divergem”.

Íntegra da nota oficial

“Venho por meio desta nota afirmar que o Conselho de Pastores de Botucatu não esteve envolvido e nem apóia uma prática de intolerância religiosa. Fazendo dessa nota um pedido de perdão aos nossos irmãos e amigos católicos que se sentiram ofendidos com o vídeo de uma prática isolada que está circulando nas redes sociais. Seguimos em pregar as boas novas de Jesus Cristo, o Salvador, de acordo com as sagradas escrituras preservando, acima de tudo, o amor e respeito ao próximo. Sem mais, missionário Paulo Cruz, secretário do Conselho de Pastores de Botucatu”

Veja o vídeo: