Rodrigo Gularte of Brazil, center, is escorted by plainclothed police officers as he is shown to the media at the Customs' office near the main airport in Jakarta, Indonesia, Thursday, Aug. 5, 2004. Gularte with two other Brazilians identified as Fred Sylva Magueta and Emerson Vieira Guimares were arrested by Indonesian authorities on July 31 for trying to smuggle 6 kilograms (13.23 lbs) of cocaine stuffed into six surfing boards. Gularte could face death sentence if he is found guilty. (AP Photo/Dita Alangkara)
Reportagem de Bela Megale publicada em edição impressa de VEJA

Quando, no fim de julho de 2004, o surfista brasileiro Rodrigo Gularte depositou oito pranchas recheadas de cocaína na esteira do check-in do voo que o levaria a Jacarta, na Indonésia, sabia bem que consequências poderia sofrer.

O aeroporto da capital, onde ele já havia estado antes, é repleto de cartazes que advertem os recém-chegados de que a pena para traficantes de drogas naquele país é o pelotão de fuzilamento. O mesmo alerta é dado ainda no avião, pouco antes do desembarque dos passageiros. Mas Gularte – o menino boa-pinta, que estudou nos melhores colégios de Curitiba e tinha fama de conquistador e aventureiro – nunca teve medo de nada.

“Ele sempre chamou atenção por ser destemido. No mar, era o que mais se arriscava”, conta o amigo, hoje engenheiro, Bernardo Guiss Filho. Na semana passada, Gularte, há dez anos no corredor da morte, teve negado o pedido de clemência feito pelo governo brasileiro ao presidente indonésio, Joko Widodo. A recusa foi anunciada dois dias depois do fuzilamento, na Ilha de Nusakambangan, de outro brasileiro, Marco Archer, o primeiro a ser executado pela Justiça de um país estrangeiro.

rodrigo-gularte1-440x328

A família de Gularte ainda tentará um último recurso para livrá-lo da execução. Na semana passada, uma prima do surfista vinda de Curitiba desembarcou em Nusakambangan, onde também está Gularte desde 2007. Ela viajou com o objetivo de buscar médicos credenciados pelo governo da Indonésia que confirmem que Gularte está mentalmente doente.

Pelas leis do país, nenhum condenado poderá ser morto se padecer de doença mental – não importa se estava são na ocasião em que cometeu o crime. “A sentença só pode ser cumprida depois da recuperação”, disse a VEJA Tony Spontana, porta-voz da Procuradoria-Geral da Indonésia.

No ano passado, uma psicóloga contratada pela família, com a ajuda da embaixada brasileira, diagnosticou que Gularte sofre de esquizofrenia. A decisão de procurar ajuda médica foi da mãe do surfista, Clarisse Muxfeldt. Ela já havia recebido notícias da administração do presídio de que o filho não estava bem, e vinha acompanhando a piora de seu quadro a cada visita. Na mais recente delas, em agosto de 2014, encontrou-o 15 quilos mais magro e dizendo coisas desconexas.

Quem conviveu com ele afirma que fazia muito tempo Gularte vinha tendo um comportamento anormal.

Logo que foi preso, o surfista costumava falar frequentemente por telefone com parentes e amigos no Brasil. A um deles, chegou a dizer que tudo acabaria bem e que ainda faria “um filme com aquela história”. Como a primeira prisão em que ficou tinha regras mais flexíveis, conseguia até mesmo ir a um McDonald’s vizinho nos fins de semana, escoltado por guardas.

“Mas ele foi mudando. No início, jogava futebol e conversava com todos. Depois, foi se isolando até se fechar numa bolha”, conta Rogério Paez, brasileiro que ficou preso com Gularte até ser solto, em 2011. “Passou a sair pouco da cela, ler livros de trás para a frente e não falar coisa com coisa. Tinha a mania de fechar a mão e olhar para o céu. Dizia que estavam ouvindo o que ele pensava.”

A jornalista e educadora brasileira Fabiana Mesquita, que visitava presos brasileiros como voluntária da embaixada, confirma: “Num dia, ele estava cheio de esperança, fazendo planos. No outro, aparecia cheio de patuás amarrados pelo corpo para se proteger dos seus perigos imaginários”. No curso de algumas alucinações, Gularte buscava esconderijo sob a cama de um companheiro de cela.

O marido da jornalista, Fábio Mesquita, médico da ONU, indicou o uso de Risperdal depois de visitá-lo certa vez, mas Gularte se recusava a tomar o medicamento alegando que pretendiam envenená-lo.

Gularte nasceu em família de classe média alta. Passou a adolescência entre a casa de praia dos pais, em Caiobá, no litoral paranaense, e a fazenda, no Paraguai. Chegou a começar três cursos universitários, mas não concluiu nenhum. Com a ajuda da família, tentou diversos negócios, que também acabaram fechando, entre eles uma creperia em Curitiba e uma casa de massas em Florianópolis, onde morou por um período.

Para os amigos e a família, ele nunca foi um traficante profissional, mas um jovem inconsequente que fez a viagem para sustentar o próprio vício, um caminho fácil naquele ambiente de drogas e sexo farto que fazia a fama de ilhas como Bali no início dos anos 2000. Agora, a doença, se confirmada, poderá poupar Gularte da execução. Mas as escolhas que ele fez – e que culminaram naquele embarque fatídico – há muito lhe roubaram a vida.

Clique aqui e participe da pesquisa

Fonte: Revista Veja