O domingo normalmente é um dia mórbido, tranquilo e melancólico, me diziam os amigos Isa e Raí. Nunca o vi assim. Sempre gostei, por ser o primeiro dia da semana e por me possibilitar a oportunidade de descanso. Pra mim o domingo é tempo de paz, de sossego é o dia de estar comigo e com outros/as.

Quando criança eu gostava do domingo, principalmente a tarde quando meu pai sentava
no tronco do cajueiro no terreiro de casa e descascava laranja e nos dava; a mim e aos
meus irmãos. Nessa época, final dos anos 1960 éramos seis, quatro filhos/as, meu pai e
minha mãe. A irmã encostada a mim já havia morrido e minha irmã mais nova ainda não havia nascido; mas estava por vir, pois nascera em junho de 1968.

Esse é um dos poucos momentos que lembro meu pai, sendo pai. Eu gostava desses
momentos, que normalmente aconteciam quando por ventura o Botafogo não jogava. Promeu pai domingo à tarde tinha cara de jogo do Botafogo. Ele costumava ir ao campo de futebol assistir aos jogos do Botafogo pelo campeonato paraibano. Por isso, eu ficava na expectativa de saber se chegado o domingo o Botafogo jogaria ou não, e gostava quando não havia jogo e meu pai ficava em casa, pois sabia que no final da tarde chuparíamos laranja e seriamos filhos, e ele pai.

A laranja era Baía, que ele comprava na feira de Oitizeiro. Desde então os domingos
passaram a ter cheiro de laranja. Pois a medida que meu pai as descascavam ia ficando
um amontado de cascas que exalava um cheiro forte que inebriava as tardes em frente de casa. Eu gostava de tudo, muito mais do convívio com o meu pai. Ele descascava uma laranja para cada filho. Enquanto chupávamos ele olhava cada um, mas nada dizia.

Meu pai sempre me olhava com um olhar que me amedrontava. Tanto, que pouco o encarava. Esse era o único momento que o olhava e o via como um pai, e ele me via como filho. Por um instante ele nos cuidava, queria bem e por vezes acariciava o meu irmão mais velho, mexendo-lhe os cabelos. O único dos filhos acariciado. Ele sorria e se encostava ao meu pai que fitava o mundo com um olhar perdido, como se procurasse algo, embora não soubesse o que.

Eu ficava a imaginar o que ele estaria pensando com aquele olhar
absorto, enquanto seus filhos se lambuzavam a chupar laranja? Nesses raros momentos
eu e meus irmãos nos sentíamos filhos, e ele pai. Além de cheiro de laranja, o domingo era dia de pai ou de ser pai. O tempo me trouxe outros domingos, com cara de festas, de rezas e de repouso. Depois que cresci o domingo assumiu muitas caras.

Mas quando criança ele também tinha cara de festa, pois comumente as moças e os rapazes a tarde iam ao baile no clube internacional em Cruz das Armas. Eram comuns as matinês a tarde para um público jovem, mas não tão maduro o suficiente para ir aos bailes noturnos. Havia duas sessões, uma que começava as quatro da tarde e ia até as seis horas da noite. Dava-se um intervalo de uma hora e as oito da noite começava a segunda sessão, aonde iam os jovens maiores, aquelas moças e rapazes cujas idades os autorizavam ir naquele horário. Por isso, passei a vê o domingo com cara de festa, pois nos outros dias, o clube permanecia fechado e não se ouvia falar em bailes e nem em festas.

O domingo também tinha cara de reza, principalmente a partir das seis horas da tarde,
quando o sacristão da igreja, no Planalto começava a tocar o sino, chamando os fiéis pra
missa das sete horas da noite. Ou quando a difusora da Assembleia de Deus, que ficava
na rua da feira, começava a tocar um hino. Tinha um trecho que dizia: “A minha alma
estava longe do caminho do céu. Eu era pobre e perdido pecador. Mas Deus transformou
minhas trevas em luz, quando ele estendeu sua mão para mim.” Até o culto começar a
difusora ficava repetindo a locução desse hino, mas na minha memória de menino ficou
gravado o seguinte refrão: “Mas Deus transformou minhas trevas em luz, quando ele
estendeu sua mão para mim…”

Nesse tempo, havia tempo pra tudo, as pessoas não viviam apressadas. Era como se o
tempo lhes pertencessem, e elas a ele. Enquanto umas moças e rapazes iam aos bailes
outras iam a missa ou ao culto, mas ocorriam de umas e uns outros dizerem aos pais que iam a missa ou ao culto, e na esquina desviavam o caminho e seguiam com destino ao clube onde tomavam parte no baile que lá ocorria. Os pais sabiam, mas fingiam que não viam e nem sabiam. Ocorria que quando o baile terminava eles já estavam dormindo, e as mães, como sempre, benditas mães, davam um jeito de abrir a porta de casa e de apascentar o velho, sob o argumento de que os/as meninos/as são jovens e precisam se divertir. Diziam as mães: nós já vivemos nosso tempo. Ora, nós também já fizemos muito isso. Como foi que você me conheceu? Mas nem sempre as coisas saiam como as mães arquitetavam, e ocorriam de as moças e os rapazes levarem uma pisa dos pais.

Mas na semana seguinte estavam a articular a ida ao baile. As mães sempre defendiam os/as filhos/as, ainda que supostamente eles/as estivessem errados/as, nunca os abandonavam, e até hoje não os abandonam. Quando por ventura fazem isso, se arrependem.

Os pais turrões, como sempre, pareciam carregar consigo a verdade, como se só existisse uma versão da vida e ela servisse o tempo todo e a todos os/as filhos/as. As mães apesar de acusarem-nas de que são todas iguais, são flexíveis ao tempo, acompanham-no, ainda que elas não saibam disso. Elas possuem várias vidas, uma para cada filho. Minha mãe um dia me disse isso: “quando uma mãe perde um/a filho/a é um pedaço dela que se vai. Por isso, uma mãe nunca deve enterrar um filho/a”.

O tempo dos pais parecia ser único, o das mães eram diversos. Embora fossem as mães
que geralmente acompanhassem os/as filhos/as, os pais ditavam as ordens; elas decidiam como cumpri-las e nem sempre as coisas se cumpriam, conforme eles determinavam. Mas elas sabiam como não desagradá-los e nem impediam os filhos de crescerem e conhecerem o mundo. Embora quando os/as filhos/as fossem, e ainda vão embora, ainda hoje são as mães que choram. Mas foram elas, e ainda são quem nos ensinaram e ensinam a falar e caminhar. Por que então, choram as mães quando por algum motivo seus filhos/as saem de casa?

Como dia de reza, o domingo era vivido pelos mais fiéis, na sua maioria os idosos/as.
Como se vivia o tempo plenamente, eu esperava um dia chegaria o tempo em que eu
aprenderia a gostar de rezar. Os/as idosos/as diziam que quem rezava conversava com
Deus. Achava que quando as pessoas envelhecem elas ficam fervorosas, pois como não
há mais o que fazer na vida, dedicam o tempo a rezar. Talvez, por isso, idosos/as vão
tanto as igrejas; muito mais que os jovens e crianças.

Confesso o domingo com cara de reza, não tinha a mesma leveza, brilho e cheiro, que o
domingo com cheiro de laranja e cara de festa. Embora eles ocorressem entre as mesmas 24 horas que compõe o dia, eram diferentes e me causavam sensações as mais estranhas possíveis. O domingo com cara de reza era meio torturante, não que eu tivesse algo contra os religiosos católicos e evangélicos, nunca tive e nunca haverei de ter. Mas porque me inquietava o fato de não conseguir falar com Deus. Tempos depois descobri a razão por que não conseguia falar com Deus. Eu não o encontrava nas igrejas católicas e evangélicas.

Logo, ir à missa ou ao culto não tinha e nem fazia sentido. Por vezes tentei ouvi-lo e vê-lo, mas nada. O domingo com cara de reza não me aprazia, tanto quanto o domingo com cheiro de laranja e cara de festa. Eu queria que o domingo com cara da reza também tivesse sentido na minha vida como tinham os outros domingos. Mas o tempo se move e cada movimento possibilita viver espaços outros e emoções tantas que se confundem, e completam os tempos outrora vividos ou não. Um dia eu vi a face e ouvi a voz de Deus. Ele estava ali bem perto de mim. Não foi num dia de domingo. Acho porque aos domingos ele descansa, e por isso, eu não o via e nem o ouvia nas igrejas. No entanto, nunca entendi porque as pessoas iam tanto as igrejas aos domingos, se nesse dia Deus não estava lá?

Outro dia, como de costume eu brincava com os meninos e meninas da vizinhança por
entre terreiros e os quintais das casas. Corríamos e gritávamos, como fazíamos sempre,
quando de repente ouvi uma voz que me disse: “não tenhas medo da vida e nem te furte de viver o tempo, porque cada coisa só acontece no tempo certo”.

Nessa época eu queria ser gente grande, trabalhar, ganhar dinheiro e mudar a minha vida e da minha família, haja vista as condições não estavam lá muito boas. Quando me virei, pra olhar quem me dizia aquelas palavras, me deparei com o Senhor Pedro, um preto velho, avô de um dos meninos com quem brincávamos todos os dias. Ele mantinha um terreiro de jurema vizinho à minha casa. Ele disse a mensagem e me olhou atentamente, eu fitei diretamente sua face que reluzia em meio a penumbra que já fazia no final da tarde e anunciava a noite. Ele me olhou, com o olhar de um pai. Parecia meu pai, quando descascava laranja no final da tarde e olhava a mim e meus irmãos. O olhar do Senhor Pedro tinha um quê de ternura, cuidado e ensinamento. Não demorou e estendeu sua mãoesquerda até meu ombro direito e perguntou: “Tá com medo?” Respondi, não. Ele então me disse: “não se preocupe, o que tiver que ser, será”. Disse isso, e saiu. Eu voltei e continuei a brincar com os meninos e meninas, que nem notaram que por um instante me afastei do grupo.

A partir de então, aprendi a viver os tempos possibilitados. Aprendi que nunca devemos
fugir deles. Mesmo que fujamos, um dia eles hão de nos encontrar e cobrar porque não o vivemos? Nesse dia perceberemos ser impossível retomá-los, mas certamente
aprenderemos ser possível viver o tempo presente de modo diferente, sem, no entanto,
perdê-lo jamais.

Assim passei a viver o domingo, e enxergá-lo como tendo cara de aprender. Eu já estava
crescido e parecia saber o que queria. Nessa época já trabalhava e o tempo que eu achava me pertencia, foi se encurtando como uma fita de cetim colorida e muita linda que todo mundo quer e, por isso, todos os dias corta um pedaço e usa para enfeitar a vida. O domingo me ensinou que o tempo deve ser vivido plenamente, mas pausadamente. Por isso, o tempo de aprender é marcado pelo silêncio, nele se refaz e renasce ideias, projetos e ações. Nesse dia haveremos de banhar-se e perfumar-se com os cheiros que a vida todos os dias nos ofertam. Assim não nos regozijemos e nos lambuzemos comendo os tantos frutos, e nos inebriemos com os tantos sabores e cheiros que a vida nos oferece. O domingo, apesar de ser o primeiro dia da semana, poucas pessoas trabalham, exceto os plantonistas. Esse tempo primeiro onde não se trabalha é dedicado a dizer pouco e muito mais ouvir, enxergar, saborear e sentir as coisas da vida, e se durante ele não for possível planejar o porvir, ao menos deve-se pensar sobre.

Este domingo está silencioso e vazio de gente nas ruas e praças. Hoje não tem o domingo com cara de festas e de rezas dos tempos de outrora? Não se escuta um só barulho e nem se sente um movimento de pessoas, exceto dos motoqueiros autônomos e anônimos, os plantonistas, cujas motos cruzam velozmente ruas e avenidas da cidade levando e trazendo alimentos aos que não aprenderam que domingo é dia de comer macarrão e galinha guisada.

Domingo tem gosto e cara de que? Hoje ele tem cara de silêncio, também quebrado pela sinfonia dos pássaros a cantarolarem equilibrados nos fios de eletricidade que ilumina as ruas, ou nas antenas de tevês e internets que compõem a paisagem da cidade, e conectam homens e mulheres. Por vezes trazem para dentro das suas casas o mundo que se move e gira lá fora. Domingo tem cara de aprender, e de ensinar a ser. O que você quer aprender a ser a partir de hoje? Hoje é domingo.

Portal/Araçagi

Waldeci Ferreira Chagas – Graduação em História pela Universidade Federal da Paraíba (1992), Mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1996) e Doutorado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2004).

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