A multidão assistira a morte da atriz e de sua arte; morrera como cantara Augusto, como inseto e todo fenômeno do solo, idealizado por Anaximandro de Mileto. Ninguém chorou, tão pouco aplaudira e nem discursara em sua homenagem. Apesar das tantas tramas encenadas onde vivera diversas personagens na teledramaturgia brasileira apresentada em horário nobre, ninguém lembrara. Morrera só, invisível e profundamente angustiada.

Apesar de a arte imortalizar atrizes e artistas, ela não se imortalizara, morrera como morrem as pedras, desgastadas pelo tempo, porque não fora enxergada a ponto de adquirir outro sentido. Na natureza as pedras não morrem, são modeladas em obras de artes, basta um escultor enxergarem-na. As ações humanas transformam pessoas na vida, à medida que as enxergam. Ela nunca enxergara os sons, os cheiros, as caras e sabores do Brasil. Por isso, não lutara por nenhuma causa humana, e assim se fora. Sem ser notada, sem referência, sem flores, sem música, sem ser lembrada e sem lembranças do tempo que vivera, eis a razão porque nem legado deixara.

Não houve choro, flores e nem vela, se quer a fala de um ex-colega de palco a sentir a falta que faria. Nada a dizer, nem a lamentar, visto que há tempo começara a morrer, embora tenha sido alertada pelos/as amigos/as. Mas não ouvira ninguém, e vira no convite para fazer tal personagem a oportunidade de vingar-se dos que ideologicamente sempre discordara. Ela sempre fora assim, apenas não tinha referência para revelar-se. Mas não tardou a mostrar quem era quando desceu do palco, atravessou a rua e foi-se.

Ela nem imaginara está construindo seu luxuoso túmulo de mármore de Carrara, porém escuro e fétido por dentro. Lá se fora a atriz que o Brasil tanto aplaudiu. Dera seu suspiro final na última apresentação na TV. As poucas palavras que dissera com sua voz mansa e aparentemente suave e delicada, anunciara a morte que lhe fora inevitável.

Não se tinha notícia de que estivesse doente. De repente caíra como um pacote flácido. Na mão direita não impusera escudo pra se defender, porque não lhe atiraram balas e nem pedras, apesar de ela ter empunhado arminha para a brava gente brasileira. A arma contra a qual não se defendera foram palavras, organizadas em forma de questionamentos.

Sem capacidade de argumento e resposta, começara a morrer. Na mão direita um bilhete, pois esquecera a “fala”. Ela nunca falara acerca da situação política do Brasil. Por que falaria agora? Falaria o quê?

Acometida pelo germe do fascismo já não ouvia e nem enxergava o mundo, as pessoas, os colegas de profissão, as coisas ao seu redor e o repórter que lhe questionara, soubera apenas repetir o que lhe mandara dizer seu superior sobre a cultura brasileira. Que lastima! Uma atriz morrer sem palavras, sem textos, sem música e, pior, sem memória. Falta de inteligência, essa fora a causa morte atestada pelo público.

Morrera no palco, em frente às câmaras, ao vivo e à cores diante a plateia que a aplaudira tantas vezes. Os primeiros sintomas foram a desconcentração frente aos questionamentos, seguida da falta de memória, haja vista que esquecera o texto que viera apresentar. Frente o quadro de morbidade passara a resmungar e a se desfazer das pessoas que a criticavam.

Desprezara o questionamento que lhe fora feito por uma colega de profissão. Diante da falta de memória da atriz, lembrara-lhe a colega, a morte dos gigantes da cultura brasileira a poucos dias e nenhuma nota de pesar fora emitida pelo presidente da República e nem pela atriz e secretária de cultura do Brasil.

Os gigantes Rubem, Morais, Aldir e Flavio, permanecerão vivos na memória dos/as brasileiros, pois eles são a própria cultura brasileira, eles deixaram os palcos da vida, mas o governo insiste silenciá-los, visto permanecer silenciado com relação à cultura brasileira desde a posse em janeiro de 2019, razão pela qual a colega atriz no vídeo clamara a também atriz secretária de cultura que ouvisse a classe dos artistas, e lhes apresentassem os feitos para a cultura brasileira.

A reivindicação feita pela colega a irritara, e ela começara morrer quando acusara os repórteres de tê-la obrigado a ouvir a reivindicação dos artistas e, mesmo tendo agradecido, teve um chilique ao vivo, mas como boa atriz, pedira desculpa aos telespectadores/as e a trama continuou, mesmo ela irritada.

Talvez se irritara com o fato de os telespectadores/as terem assistido ao vivo o chilique que dera, ou fora com as cobranças feitas pela colega de profissão? A segunda hipótese é a mais provável porque a atriz/secretária num tom de quem ressuscitara depois do chilique, desqualificou a repórter, que segundo ela, a obrigara assistir ao vídeo da colega e debochou: “ah, ela tá desenterrando a mensagem, pra quê? Quer que você ganha com isso? A repórter justificara: “é porque é a sua classe”. Diante dessa afirmativa, a atriz tivera outra crise dessa vez seguida de facistoide e perguntara à repórter: “quem é você? Quem é você pra tá desenterrando uma fala dessa atriz de há dois meses atrás?” Dissera em tom de irritação e resmungara “ah”, e não dera atenção a repórter que lhe dissera: “não, secretária ela enviou pra gente hoje”. Não, não, eu não quero ouvir, dissera a atriz/secretária em meio aos apelos do repórter que a ancorava a entrevista no palco.

Mas a atriz/secretária insistia em não querer ouvir ninguém, parecia tomada por algum veneno que a impedia de raciocinar e dar atenção ao repórter que estava no palco e ao outro que diante dos não, não, não, da atriz secretária, de braços abertos e cabeça inclinada para trás e se balançando, continuara a afirmar: “eu não quero ouvir”.

Os repórteres nos estúdios em outra cidade insistiam que ela tinha obrigação de ouvir o clamor da colega atriz, visto ser a secretária de cultura. Mas a atriz/secretária continuara a balançar-se e inclinara a cabeça para traz num gesto de desqualificação da fala da colega, que na qualidade de profissional da arte e cidadã brasileira cobrava da atriz/secretária os feitos até o momento da gestão em curso.

Mas a atriz/secretária dissera: “o que é isso?” Como se a cobrança lhe fosse uma afronta. Enquanto o repórter do palco afirmara: “ela não vai responder”. A atriz/secretária completara a frase iniciada pelo repórter: “não”, afirmara que não iria responder e continuara num tom de quem o responsabilizaria não tê-la deixado falar: “eu tinha tanta coisa bacana pra falar, vocês estão desenterrando mortos. Vocês estão carregando o cemitério nas costas. Vocês devem tá cansados, fiquem leves”.

Com essas afirmações a atriz/secretária desdenhara da questão que lhe fora posta, mas a repórter nos estúdios em outra cidade, lembrara-lhe: “secretaria o país perdeu 615 pessoas por covid 19 entre eles uns artistas. Secretária o vídeo foi enviado pela sua colega hoje. Só pra deixar claro nós não estamos desenterrando mortos. Nesse momento nós estamos enterrando milhares de brasileiros, dentre eles alguns dos seus colegas. E solicitou ao colega de palco que ficasse à vontade para encerrar a entrevista”. Outro repórter afirmara: “isso é uma falta de respeito”.

Com o ar de vítima de quem não entendera nada de tal cena, a atriz/secretária dissera: “não foi combinado nada disso. Eu pensei fosse uma entrevista com você, começam entrar pessoas a desenterrar mortos, desenterrar mortos, gente pelo amor de Deus”.

Ao invés de falar para a gente brasileira, e aos colegas de profissão sobre os feitos na cultura brasileira, rira, não fora um riso de felicidade, contentamento e prazer pelos feitos realizados à frente da secretaria da cultura. Rira de deboche da brava gente brasileira, sobretudo dos colegas atores, atrizes e artistas com quem outrora contracenara. Rira também dos que morreram pela covid 19 e dos que outrora sofreram os horrores da ditadura militar que ela solenemente ignorara, sentira saudade, e exaltara cantando: “(…)de repente aquela corrente pra frente”. Ainda se referindo a esse período dissera sarcasticamente: “não era bom quando a gente cantava isso”?

Em meio a encenação da solene morte da atriz, o repórter questionara: “esse foi um período muito difícil da história, muita gente morreu na ditadura”. Mas ela que desde outrora ignorara o regime ditatorial no Brasil, as mortes e torturas cometidas pelos militares contra a brava gente brasileira, muitos dos quais seus colegas de profissão, debochara e rira se sacudindo num gesto de quem dizia: E daí se morrera muita gente!

Nesse instante ainda rindo de tudo e de todos chamou a atenção do repórter para o questionamento que ele fizera acerca do jingle que cantara e da referência que ele fizera as mortes de brasileiros/as durante a ditadura militar no Brasil: “cara, desculpe, eu vou falar uma coisa assim, na humanidade não pára de morrer, se você falar vida do lado tem morte. Porque as pessoas oh, oh, oh?

Fez caras e bocas e debochou ainda mais dos mortos pela covid 19 e ditadura militar, quando gesticulou os braços pros lados, balançou a cabeça e a inclinou pra frente e mudou o tom de voz. Seu corpo dissera não saber porque o motivo da preocupação com os que morreram durante a ditadura militar e com os que morreram hoje?

Atônito e horrorizado com a postura da atriz/secretária, o repórter dissera: “houve tortura secretária, houve censura à cultura”. Ela no seu comportamento facistoide e interrompendo-o, disse: “bom sempre houve tortura, sempre. Meus Deus do Céu, Stalin”.
Dissera isso, suspirara de lado, e arrumara o cabelo. Morrera, por negar a arte e a história. Fora sepultada em jazigo de mármore Carrara e na lapide escrita o epitáfio: Aqui jaz a atriz que negara a beleza da arte e da história de uma gente que já a aplaudira na esperança de dias melhores.

Waldeci Ferreira Chagas – Graduação em História pela Universidade Federal da Paraíba (1992), Mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1996) e Doutorado em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2004).