Engana-se quem pensa em mudanças profundas na sociedade em um cenário de pós-pandemia no Brasil. Ando cético sobre isso, não é de hoje.

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Seja ela estrutural, institucional, social, emocional ou até espiritual, estamos agindo no sentido de estarmos perdendo a capacidade de nos sensibilizarmos com o próximo, atestando a ideia de normalização dos fatos, onde mortos representam apenas números, estatística.

Neste último sábado (21), o Brasil atingiu a triste e impactante marca de 50 mil vítimas fatais do novo coronavírus (COVID-19). Apesar do número assustador, diante disso tudo, melhor, diante dessas vidas e seus familiares que terão que conviver com esse eterno luto, parecem que outras pautas acabaram predominando.

Lembro-me que a cada, também, triste nota divulgada pela imprensa brasileira acerca do número de casos positivados e de vítimas fatais em países a exemplo de Itália e Estados Unidos, era notória a grande comoção.

Hoje, aqui (Brasil), especialmente nesta triste marca (50 mil mortos), achamos por bem nos ocuparmos sobre outras pautas. Dentre elas, podemos citar a repercussão da possível fuga do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, para os Estados Unidos e a Live do artista Wesley Safadão que, inclusive, teve início antes da divulgação oficial do boletim deste sábado (21), sobre o avanço da COVID-19 no Brasil, pelos grandes telejornais.

Sem uma hashtag específica, luto ou qualquer nota de pesar de ocupantes de cargos públicos, que também acaba sendo um conforto as famílias e um alerta, mais um, sobre a gravidade do problema, seguimos preocupados sobre o retorno do futebol, reabertura de shoppings e as lamentações pela proibição das tradicionais fogueiras nos festejos juninos.

Apesar da legitimação das referidas pautas, tudo deve ser dentro do seu devido tempo, sem sobrepor-se à vidas.

Esta reflexão não está ancorada na ideia de hierarquização das dores ou reivindicações, mas apenas uma observação de cunho comportamental.

Por essas e outras não comungo com a ideia de que sairemos desta situação com “mais consciência”, mesmo com a pandemia deixando latente as chagas causadas e mantidas pela desigualdade social na sociedade brasileira.

Governo e sociedade em geral tem ambos suas parcelas de responsabilidade e capacidade de desenvolvimento.

Mesmo soando estranho, até aceitável como redundante, o “ser humano” ainda tem muito a evoluir para se tornar, de fato, “humano”.

Graduado em História pela Universidade Estadual da Paraíba

 

Da Redação/Portal Aracagi