O Racismo é um tema bem debatido em meio a sociedade atual, visto as diversas operações que o envolve, pois racismo, não diz somente respeito tão somente às horripilantes maldades a pessoas de peles negras. No entanto, Achille Mbembe em seu livro sobre “Crítica da Razão Negra”, nos revela que o racismo, apesar de abranger uma percepção de superioridade entre uma etnia para outra, o racismo com as pessoas de peles negras, se tornou um estigma que “Em muitos países assevera-se agora um racismo sem racismo sem raça.” Nesse caso, Mbembe nos proporciona que agora esse mal da sociedade, tornou-se estrutural e estigmatizado tanto pela cor, quanto pela consciência do ser Negro no mundo.

Outrossim, sabemos que o racismo é estrutural e que está difundido no meio da sociedade mundial, consequentemente, na brasileira. Ele está imbuído nas estruturas e nas diversas entidades da sociedade e as pessoas de peles negras são as que mais sofrem, pois foram cerca de 300 anos de desumanização, violência e massacre do povo de pele com mais melanina. Entretanto, esses negros/as sempre resistiram a esse sistema escravista e genocida, que fora exercido contra o povo negro.

Nesse texto iremos discutir o racismo no ambiente de religiões cristãs, ou seja, abordaremos casos ocorridos nesses ambientes dessas entidades sociais no Brasil, no intuito de entendermos o quanto esse racismo estruturante afeta negros/as que congregam com a fé, contudo, percebendo e procurando analisar se são percepções racistas particulares, se são as estruturas das entidades religiosas que operam de modo racista ou se trabalham de maneira sinérgica entre si, cooperando, neste sentido, para o Racismo estrutural. Segundo Guimarães (2020) “Uma estrutura racista que permeia as nossas instituições e que permite que os resultados – a vitória e o fracasso, a riqueza e a pobreza, a segurança e a violência – recaiam diferentemente sobre os racializados.”

No ambiente do Catolicismo brasileiro segundo Folha de São Paulo “Padres e ex-seminarista negros relatam racismo dentro da Igreja Católica”. Segundo a matéria do Jornal e as descrições sobre as notícias, essa situação decorre da escravização negra que ocorrera e do Racismo Estrutural. Relata ainda mais que há uma enorme dificuldade de religiosos negros alcançarem cargos maiores dentro da carreira clerical e isto se dá devido ao Racismo Estrutural que opera na entidade religiosa. Nessa mesma matéria, uma das indagações é: visto no Brasil a população negra ser 56% do total populacional, porque nas posições e cargos clericais os negros são tão poucos? Pergunta esta, que só há resposta no Racismo estruturante.

E em meio as Igrejas Evangélicas Brasileiras como funciona esse tema do Racismo Estrutural, visto “que segundo o Datafolha de 2019, cerca de 60% dos evangélicos são negros”? Pois é, o Racismo estruturante opera de forma tão veemente dentro dessas instituições religiosas cristãs, que além do tema ser pouco valorizado e percebermos poucos reverendos negros ou em posições de destaque em meio a esses locais eclesiásticos, não se tem uma especificação da quantidade ou estimativa de quantos reverendos se tem no meio desse movimento religioso.

Segundo Marco Zero (2020) “Uma igreja que nunca se posicionou oficialmente sobre o seu lugar na escravização do povo negro – que é uma das maiores violências da humanidade – é uma igreja que não vai conseguir enxergar o racismo no cotidiano, na sua estrutura […]”. A Organização de um Congresso de uma Igreja evangélica brasileira é acusada de racismo, pois boicotou palestrantes negros que iriam debater sobre o tema “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a Igreja?” Dessa maneira, são atitudes como essa dentro desses ambientes religiosos, as quais poderiam ser absurdamente enumeradas, provindas de lideranças protestantes, que revela-nos o Racismo Estrutural nas estruturas das Igrejas Evangélicas Brasileiras, que segundo o debate de Silvio Almeida sobre este conceito, trabalha com a finalidade de invisibilizar negros a cargos eclesiásticos representativos e de liderança.

Marx Weber em seu livro “A Ética Protestante e O Espírito do Capitalismo” faz uma relação contundente entre a cultura capitalista moderna e as relações “protestantes dos séculos XVI e XVII”. Assim percebemos a influência capitalista não somente na igreja evangélica, mas em outras religiões, pois vivemos em um mundo capitalista. Outrossim, bem se sabe que essas entidades sobrevivem de arrecadações provindas de sua membresia e que o capitalismo em um mundo capitalista influencia e coopera para o Racismo Estrutural. Assim, visto que negros foram historicamente lançados para a margem da sociedade brasileira sem direito a políticas que lhes auxiliassem a ascender economicamente e atualmente “Entre aqueles que não têm emprego ou estão subocupados, negros são a maior parte”, como funciona a ascenção de negros a cargos eclesiáticos nessas igrejas evangélicas do Brasil? Ou será que, como evidenciado por padres e ex- seminarista que denunciam o Racismo Estrutural na Igreja Católica, esse mal do racismo estruturante é também uma tônica em meio as igrejas evangélicas brasileiras?

Desse modo, o que se tem que compreender e atuar, é contra o Racismo Estrutural que invisibiliza a população negra do Brasil, tanto em entidades institucionais quanto nas estruturas das entidades sociais, consequentemente, eclesiásticas do Brasil. Isso só ocorrerá através da mudança na consciência social e de forma mais atuante com uma transformação nas estruturas da sociedade brasileira, através de políticas para promover a ascensão social da população negra brasileira.

Álef Mendes – Graduando em História pela Universidade Estadual da Paraíba

Fontes:

https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2020/Carta-aberta-aos-antirracistas

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/07/padres-e-ex-seminarista-negros-relatam-racismo-dentro-da-igreja-catolica.shtml

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https://medium.com/@matheusantinho/relembrando-marx-weber-resumo-de-a-%C3%A9tica-protestante-e-o-espirito-do-capitalismo-86d4c40955ef#:~:text=ESPIRITO%E2%80%9D%20DO%20CAPITALISMO-,A%20%C3%89tica%20Protestante%20e%20O%20Espirito%20do%20Capitalismo,obra%20mais%20famosa%20de%20Weber.&text=Ou%20seja%2C%20em%20suas%20an%C3%A1lises,XVII(WEBER%2C%202007).

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Da Redação/Portal Aracagi