Educação como ação contra as desigualdades - Agência Envolverde

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As desigualdades sociais não são naturais. Ao contrário da diversidade que é um dado da própria existência.

No entanto, é um erro bastante comum confundir essas duas espécies de coisas. As desigualdades estão baseadas na distribuição assimétrica de bens considerados valiosos. Eles podem ser materiais como o dinheiro, terras, máquinas, meios de produção. Mas também bens culturais, poder e prestígio social. A diversidade, por sua vez, diz mais respeito à singularidade de cada pessoa e às diferentes formas de expressão da cultura humana.

É sempre bom olharmos as desigualdades a partir das lentes da história. As sociedades primitivas, por mais estranho que possa parecer aos ouvidos do senso comum, eram “essencialmente” igualitárias. Elas não possuíam trocas econômicas, relações de autoridade, Estado e divisão de classe.

As primeiras formas de desigualdades nascem paralelas à criação do Estado e ao sedentarismo decorrente da invenção da agricultura. A consequência disso foi uma maior especialização na divisão social do trabalho e a geração de um excedente produtivo destinado à manutenção da estrutura estatal, do privilégio da classe dirigente, dos religiosos e do exército.

Nesse contexto surgirá também a distinção entre trabalho intelectual e trabalho manual, que persiste até os dias de hoje. O trabalho intelectual é visto como superior e funciona como um marcador de distinção social. Durante séculos as atividades intelectualizadas foram praticamente uma exclusividade da aristocracia.

A educação formal, sistemática, escolarizada e de caráter universal, só começa a ganhar  forma, no Ocidente, na segunda metade do século XIX. É apenas na Modernidade com o estabelecimento do capitalismo e a revolução industrial que a educação escolarizada toma um caráter geral. Em grande medida devido ao mercado e à crescente complexificação das atividades de trabalho promovidas pela demanda industrial. Assim, não é errado afirmar, a escola é uma continuidade da fábrica.

A escola moderna é uma invenção, portanto, que possui a finalidade de produzir mão de obra especializada para atender à demanda capitalista e à tarefa pedagógica de disciplinar os indivíduos. Não é à toa que a estrutura física das escolas, seus sistemas normativos, o controle que exercem sobre o tempo e os corpos, a padronização das vestimentas, guardam semelhanças com as fábricas e os presídios.

Curiosamente o ideário liberal moderno pensa a escola como uma instituição neutra, capaz de promover maior igualdade. Através da escola a ascensão social, supostamente, estaria ao alcance de todos. O sucesso e o fracasso escolar seriam explicados pela ideologia da meritocracia e do dom — que não passa de uma forma de tratar as competências escolares como se fossem qualidades inatas.

Essas ideias não se sustentam diante de uma análise rigorosa. Não precisamos de muito esforço para percebemos que a escola não é neutra. Ela expressa a cultura, os valores, os interesses e a forma de pensar da classe dominante. Os critérios de julgamento da excelência escolar tem um caráter arbitrário. Por que certas disciplinas são mais valorizadas do que outras? Por que academicamente valorizamos a música de Beethoven e não o repente? Isso nos leva a questões ainda mais profundas: o que julgamos ser o conhecimento? Como ele é selecionado, sistematizado e repassado? De que forma é produzido? Por quem? Para quem? Quais interesses verdadeiramente ele expressaria?

As pesquisas do sociólogo francês Pierre Bourdieu ficaram famosas por demonstrar que a probabilidade do sucesso escolar aumenta na medida em que há maior semelhança entre o capital cultural que recebemos na socialização familiar e o tipo de capital cultural que é valorizado pela escola. Filhos de pais letrados, donos de um capital cultural mais valorizado, tendem a levar vantagem em relação a pessoas que não tiveram acesso a esses mesmos bens culturais.

Geralmente membros das classes populares têm baixíssima confiança na ideia de que conseguirão conquistar ascensão social através da escola. Por isso que, na escola, costumam ser menos motivadas do que os filhos da classe média e da elite. Ter menor autoconfiança, disciplina e capacidade de concentração.

Bourdieu percebeu algo que costuma chocar os espíritos mais ingênuos: as relações pedagógicas estão assentadas em valores implícitos que foram estabelecidos arbitrariamente. Em outras palavras: as relações pedagógicas, em última instância, são uma forma de violência simbólica que favorece a manutenção e a reprodução das desigualdades sociais.

 

***Este texto reflete unicamente a opinião do autor. 

Estevam Dedalus é Doutor em Sociologia e professor do IFCE

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