Por Álef Mendes 

Foi num domingo de manhã. Um dia como outro qualquer ou parecia ser outro dia qualquer. O dia no brilho do sol parecia resplandecer bastante para não ser um belo raiar de um dia magnífico, mas não foi magnífico? Era um dia de manhã, era um dia de se divertir; de sair à visitar a família; de se divertir com os amigos, era um domingo de manhã, o sol raiou e a luz brilhou, mas apagou com o choro no olho do sol; com as lágrimas efervescentes como larva de vulcão, de sol. Os pássaros cantavam, assim como num lindo dia de manhã eles cantam, pois era pela manhã bem cedo; a vida parecia andar muito bem, mas andava bem ou não? Parecia ser um dia normal ou foi normal? Normal para quem? Talvez para alguns ou para muitos. Ele acordou bem cedo, cedo mesmo; o sol ainda se encobria nas nuvens abaixo do horizonte, mas o sol raiou naquele domingo de manhã e refletiu em sua pele negra. Tudo isso foi num domingo de manhã, mas acabou por aí? Não, porque para alguns o dia foi um domingo como outro qualquer, mas para ele foi além do que um domingo de manhã, foi um dia que marcou. Quando o sol raiou no horizonte, ele se pôs a meditar: que dia é esse? Parece-me um dia tão lindo, na verdade ele é muito lindo. Ele sentiu o sol queimando em sua pele, pele negra; os pássaros que cantarolavam no seu ouvido; o vento que regia as árvores; o som das águas que desciam na cachoeira naquele dia de manhã. Tudo pareceu tão lindo, tão romântico, mas foi o dia que marcou, foi um dia bem diferente para ele, pois lhe trouxe lembranças de muitas coisas. Dos gritos se ouviam os ecos, era o seu nome ecoando no desfiladeiro, mas, o que? Parecia ser obra divina, ser uma voz dos céus naquele domingo de manhã, mas era o seu nome sendo ecoado, ele não queria que o seu dia fosse estragado, mas será que ia ou já estava estragado? Não sei, mas naquele domingo de manhã não foi um dia qualquer, foi um refúgio e um brilho natural da natureza que adentrava a sua pele negra. Pele negra e negra pele que lhe causava anseios e traumas naquele dia de manhã. Poderia ser um dia como outro qualquer ou como um belo dia de domingo normal, mas foi o dia que marcou a sua história, um dia que marcou a sua pele, pele negra que sofreu o descaso do racismo. Mas ele acordou naquele dia e contemplou a beleza que lhe dera aquele dia, por um momento se esqueceu das chacotas que antes sofreu, das injúrias que assolavam a sua alma, dos desatinos que enfrentou, das cuspidas que levou no rosto e das analogias com um tição que antes sofreu. Mas para quem de cima olhasse, parecia só um menino negro que contemplava o horizonte e as águas que desciam rumo ao mar, no entanto, por dentro o dia não era tão perfeito quanto parecia, pois o trauma lhe assolava psicologicamente; o medo de não ser visto ou de não ascender no que queria por causa da sua pele; a não virtude dos “virtuosos” lhe assolava e ele noutro século distante procurava um refúgio para a sua alma perdida e para o seu espírito aflito pelo trauma do racismo sofrido antes, ele só queria que aquilo tudo mudasse, que aquela situação não se repetisse com mais ninguém, e ele pensava: quando tudo isso vai acabar e todos nós seremos tratados iguais? Quando? E olha que toda essa angústia interna lhe sobreveio só num dia, num lindo dia, esse dia foi um domingo de manhã.             

Redação/Portal Araçagi         

Álef Mendes – Graduando em História pela Universidade Estadual da Paraíba