Arquivo – Memorial do Cordel Brasileiro

Um pequeno apanhado histórico sobre a mulher cordelista. Atualmente não há mais dúvida que sempre houve a presença feminina na escrita, escuta e leitura do cordel. Já no que se refere à editoração em formato de folheto é quase que uma unanimidade que Maria das Neves Batista Pimentel, nascida em João Pessoa no ano de 1913, foi a cordelista pioneira com a obra “O violino do Diabo ou o valor da honestidade”, publicada em 1938 (QUEIROZ, 2006). Muito embora assinasse com o nome do marido, Altino Alagoano, esta desenvolve sua escrita com as cores de uma sensibilidade toda própria e inaugura o filão autoral que expressa a poética feminina no cordel de modo ininterrupto até hoje.

Os pesquisadores Gutemberg Costa (2004) e José Alves Sobrinho (2003) nomeiam outras pioneiras do cordel feminino, tais como Clotilde Tavares, Lourdes Ramalho, Maria Lindalva Gomes, Mocinha de Passira – também cantadora de viola –, dentre outras.

Mais recentemente a escrita feminina no cordel passa a ter uma maior intensidade, o que remonta às duas últimas décadas do século que passou. No Ceará, por exemplo, isto se reverbera através do Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste (CECORDEL), associação de poetas fundada em Fortaleza no ano de 1987 e a primeira em que as mulheres passam a ter voz (BRANDÃO, 2020). É sob esta chancela que nomes como os de Ana Jucá, Maria Luciene, Valda Alves, dentre outras, publicam seus folhetos e, de modo cooperativo, participam dos folhetos coletivos como autoras reconhecidas por seu talento de poetas cordelistas.

No que se refere a primeira antologia de poetas cordelistas em que há participação de mulheres devemos reconhecer que desde o volume II da Antologia Brasileira de Literatura de Cordel, publicado em 1995, já há alguma representação feminina. Neste caso através de Luciana Barbosa Nobre, poeta acreana que compõe a galeria de autores na edição com o cordel “O Acre – Uma terra de heróis”(SILVA, 1995).

Hoje é possível identificar uma grande ampliação na escrita cordeliana feminina. Há todo um movimento que agora passa pela organização das autoras em coletivos compostos unicamente por mulheres, a exemplo do Cordel de Saia, blog criado em 2010, pela cordelista cearense e membro da Academia Brasileira da Literatura de Cordel Dalinha Catunda, para difundir a escrita da mulher cordelista; Mnemosine. Rede de mulheres cordelistas, cantadoras e repentista, coletivo organizado em Fortaleza a partir de 2015; Cordel das Rosas, coletivo criado em 2020, a partir da Paraíba, e que se expande a partir da internet.

Referências:

ALVES SOBRINHO, José. Cantadores, repentistas e poetas populares. Campina Grande: Bagagem, 2003.

BLOG Cordel de Saia. Disponível em: http://cordeldesaia.blogspot.com/2010/. Acesso em 28 mar. 2021

BRANDÃO, Antonio Helonis Borges. Apropriações instituídas e a subversão do popular: usos formatos e poética do cordel literatura (1955-2008). 2020. 411 f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em História, Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2020.

CORDEL das Rosas. Disponível em:

https://www.facebook.com/cordeldasrosas/

. Acesso em 28 mar. 2021.

COSTA, Gutemberg. Dicionário Bio-Bibliográfico de poetas cordelistas do Rio Grande do Norte: a memória da literatura de cordel no Rio Grande do Norte. Mossoró: Queima Bucha, 2004.

MNEMOSINE. Rede de mulheres cordelistas, cantadoras e repentista. Disponível em: http://redemnemosine.blogspot.com/. Acesso em 28 mar. 2021.

QUEIROZ, Doralice Alves de. MULHERES CORDELISTAS Percepções do universo feminino na Literatura de Cordel. 2006. 221 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários, Faculdade de Letras da UFMG, Belo Horizonte, 2006.

SILVA, Gonçalo Ferreira da. Antologia. Vol. 3. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Literatura de Cordel, 1995.

Lembrando que o este ano o Cordel das Rosas está fazendo um ano, que inclusive terá uma live dia (31/03) às 19h. Esse movimento a cada dia vez crescendo, atualmente tem quase 50 mulheres de todo o Brasil.

Este movimento já publicou alguns Cordeis, por exemplo: “Cordel coletivo quando tudo isso passar”; “Diga não a violência doméstica”; “outubro no Cordel das Rosas”; “A campanha do novembro azul”; “O setembro amarelo”; “O dezembro verde” que foram temas trabalhados de alerta para a sociedade e que agora faz um ano e vem agregando outras cordelistas de todo o País.

É uma alegria para o município de Araçagi ter uma cordelista que está participando do movimento como destaque na literatura de Cordel não somente no município, Estado ou na região Nordeste, mais em todo o País.

Poetisa Silvinha França

Redação/Portal Araçagi