Com muita coragem, em cima de sua bicicleta, Creuza andava grandes distâncias, de casa em casa, convencendo mulheres a fazerem o teste Papanicolau. A profissional coletava amostras e levava ao hospital, o que possibilitava o diagnóstico de câncer de forma prematura, aumentando as chances de cura, fato que salvou a vida de muitas mulheres

Existem profissionais que exercem a sua profissão com tanto esmero que acabam deixando o seu nome para sempre registrado na história. Hoje trazemos para vocês a história de uma dessas profissionais.

Creuza de Moraes Saure nasceu em 1964, em Santa Helena de Goiás (GO). Aos 12 anos, começou a trabalhar na roça, profissão que continuou exercendo depois que se casou e mudou-se para Guaíra (SP). Nessa época, surgiu a oportunidade de estudar, Creuza matriculou-se no curso de atendente de enfermagem e, no final dos anos 80, passou a trabalhar na Santa Casa de Guaíra. Como seu curso seria extinto, ela foi estudar para se tornar auxiliar de enfermagem em Barretos e foi essa decisão que fez com que seu nome entrasse para a história.

Em 1994, o doutor Paulo Prata procurava uma profissional para ajudá-lo em seu trabalho no Departamento de Prevenção do Hospital de Câncer de Barretos. Coube ao doutor Edmundo Mauad encontrar quem pudesse exercer a tarefa de convencer as mulheres a realizarem o exame preventivo. A escolhida foi Creuza Saure e ela desenvolveu sua nova função com muito louvor.

Após seis meses de treinamento, Creuza estava pronta para colher o exame Papanicolau, teste ginecológico que serve para detectar câncer de colo do útero. A ideia do projeto era escolher um bairro de Barretos, preencher fichas com dados das pacientes no período da manhã e fazer a coleta do exame em uma sala adaptada no salão paroquial do bairro, mas Creuza observou que, apesar de preencher muitas fichas, pouquíssimas mulheres apareciam na hora do exame e, quando questionadas, elas sempre davam uma desculpa.

Diante dessa dificuldade, a equipe com a qual Creuza trabalhava percebeu que seria necessário fazer os exames nas próprias casas, um neurocirurgião desenvolveu uma mesa ginecológica portátil e começou a ir até as casas. No início, a resistência ainda era grande, as mulheres temiam que o hospital estivesse querendo tirar algum tipo de vantagem, outras não contavam com a aprovação do marido para a realização de um exame desse tipo, mas a insistência de Creuza e a presença dela na casa das pacientes, fez com que ela ganhasse a confiança necessária e conseguisse coletar os exames.

Como ela não tinha habilitação, ia de bicicleta, com sua mesa ginecológica portátil, a quatro bairros da periferia de Barretos e realizava os exames em centros comunitários ou na casa das mulheres. Assim, a técnica de enfermagem colheu, nesse período inicial de implantação do projeto, 1700 exames, sendo que sete deles deram resultado positivo.

Com o sucesso do projeto, em 1998, uma Kombi foi adaptada para a realização dos exames e o hospital passou a realizar palestras para combater o preconceito que havia em torno dos exames ginecológicos e o machismo que levava muitos homens a só permitirem os exames se estivessem presentes. Hoje, inúmeras são as unidades móveis que fazem esse tipo de atendimento e Creuza continua trabalhando no Hospital de Barretos e em uma dessas unidades móveis.

O trabalho de Creuza rendeu-lhe o prêmio de Mulher do Ano, em 1998, conferido pelo Fundo do Desenvolvimento das Nações Unidas pela Mulher (Unifem), mas, para ela, mais importante do que qualquer premiação, foi o trabalho de prevenção que ela conseguiu realizar, salvando a vida de muitas mulheres e levando informação para quem mais precisava.

As pedaladas de Creuza, o amor à profissão e a confiança que ela conseguiu conquistar foram essenciais ao trabalho de prevenção de câncer de colo do útero, já que quanto mais cedo se inicia o tratamento, maiores são as chances de cura e foi graças ao seu empenho que muitas mulheres foram diagnosticadas e puderam se tratar a tempo.

Texto – Adriana de Paula e Joel Paviotti

Referências:

PRATA, Henrique Duarte. “Acima de tudo o amor: como a fé e a solidariedade construíram o maior polo de referência nacional contra o câncer”. São Paulo: Editora Gente, 2012. Ver menos

Fonte: Iconografia da História