Por Jefferson Procópio – Representatividade: Uma voz que ecoa

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Nos últimos dias, uma força vem ganhando as ruas, tais como movimentos sociais e revoltas públicas devido a acontecimentos que puderam expor a fragilidade do nosso sistema, e deixo claro desta vez que esta fragilidade não é somente do poder público, e sim em todas as esferas sociais possíveis que nos abrangem. A contagem de pessoas em manifestações e movimentos que estão ocorrendo no Brasil é de relevância histórica, porém é rebatida como debate passional e deve ser compreendida pelos dados de grande valia a este fenômeno. A observação do grau de representatividade social e política dos que saem as ruas é importante para a criação do estresse social e político onde expõe o problema principal: a falta de representação para esta força.

É de suma importância salientar que, no âmbito da democracia e do sistema representativo, não é correto pensar que apenas os grupos majoritários devam ter suas vontades e necessidades atendidas. Essa ideia de que a democracia configura-se como uma “tirania da maioria¹” deve ser prontamente corrigida. Uma sociedade, para ser verdadeiramente democrática, deve amparar a todos os cidadãos que fazem parte do meio social. Para tanto, é necessário que ferramentas institucionais sejam criadas para que a representatividade seja garantida aos grupos minoritários, de modo que assim consigam dar voz às suas necessidades.

Representatividade: Mas que monstro é esse?

Em termos gerais, a representatividade significa representar politicamente os interesses de determinado grupo classe social ou de um povo. É uma competência atribuída a um indivíduo ou uma entidade (político, partido, sindicato etc.) fundamentada na habilidade apresentada para desempenhar tal papel. A representatividade política em um Estado moderno significa que a maioria da população elegeu um representante para tomar decisões “em nome do povo”, na Assembleia da República, Congresso ou Parlamento. A representatividade social sugere a inserção de uma pessoa ou símbolo para luta de classes, etnia, raça, direitos, entre outros. E é neste ponto que irei subjugar e destrinchar o meu pensamento.

Émille Durkheim, grande sociólogo, já afirmava em seus pensamentos que as representações coletivas, são concebidos como formas de consciência que a sociedade impõe aos indivíduos. Já as representações sociais, pelo contrário, são gerados pelos sujeitos sociais. Esta diferença é fundamental para a compreensão geral deste movimento pertinente, porém centenário. É pertinente, entretanto, ressaltarmos que não são todas as minorias que sofrem com o problema de representatividade. As minorias elitizadas, ou os grupos da elite organizada, como é o caso dos mais ricos, conseguem realizar articulações políticas para obter o que desejam por meio do poder monetário e da influência que possuem.

Vale ressaltar, mais uma vez, o abismo entre brancos e negros, pobres e ricos, miscigenados e nativos, o real carro chefe de tantos enfrentamentos. Infelizmente, esse é um país que convive com uma desigualdade estrutural, especialmente em relação à questão racial, o preconceito social no País passa também pelo racismo. Só não concorda quem não acompanha o dia a dia da vida brasileira. Um negro que dirige um carro médio, por exemplo, é parado diversas vezes pela polícia, ou quando vai a um restaurante, avisam a ele que a entrada de serviço é do outro lado. Para curar qualquer doença, é preciso reconhecê-la, e esta doença chama-se desigualdade.

O enfoque surge em outros quesitos também, feminicídios, violência, mercado de trabalho, cinema e literatura, desemprego. Os números são alarmantes, em todos os aspectos gerais citados. Por exemplo, o número de homicídios com negros são 70% a mais que os brancos.

Já que polemizar é comigo mesmo, então…

Nós mesmos somos contra a igualdade, e também contra a desigualdade! Foi isso mesmo que você leu… Nós seres humanos temos tendência a aversão hierárquica devido a nossa evolução histórica, e vou provar o fato:

Platão afirmava que romper a rígida separação entre as três classes sociais que descrevia em: A República “é o maior dano que se pode fazer à cidade”. Confúcio observou algo similar quando dizia: “deixa o governante ser governante, o súdito ser súdito, o filho, filho”. Parece que os humanos compartilham com outros animais uma inclinação natural por manter as hierarquias existentes. Isto se deve a que, quando se busca o bem-estar comum, melhoram as possibilidades de sobrevivência da maioria, já que se reduz a violência dentro do grupo. Do ponto de vista individual a hierarquia satisfaz uma busca de estrutura e do ponto de vista do grupo a diferenciação hierárquica incrementa a cooperação e a efetividade.

Porém, é claro, existem as anomalias sociais, como citado acima e contraditoriamente afirmado até agora. Como somos um país de extremos, existem os opressores e oprimidos, daí vem o contraponto: até que ponto estes extremos são prejudiciais?

“Mimimi” ou vitimismo? Quem é quem, e o real impacto

O vitimismo pode ser muito vantajoso. Uma pessoa que é vítima de algo, de uma forma ou de outra, acaba sendo poupada das críticas dos outros e conta com a compaixão e a compreensão de muitas pessoas, independentemente do que fizer. Esta condição permite criar uma espécie de imunidade que faz parecer que tudo o que a vítima diz é verdade e que tudo o que ela faz é bem-intencionado. Mas em alguns casos esse vitimismo calculado, seja consciente ou inconsciente, esconde uma chantagem.

Na verdade, estamos falando da vitimização como posição existencial. É quando um acontecimento traumático se converte em uma espécie de carteira de identidade eterna. A pessoa usa a sua condição de vítima, não porque foi testemunha de algo ou presenciou um crime, mas para ganhar privilégios que de outra forma não conseguiria. É o tipo de pessoa que faz do seu sofrimento uma espécie de currículo cuidadosamente apresentado. Em casos mais graves, as vítimas acreditam que isso lhes dá “carta branca” para odiar ou machucar outras pessoas.

Mas caro leitor, até o momento você deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com representatividade? E após explicar ponto a ponto, cheguei ao ápice; o que ela pode ser e qual status possui, enfim, o “bate-pronto”…

A reação dos grupos minoritários, sobretudo os historicamente subjugados, tem criado uma espécie de guerra velada, apesar da oposição cada vez mais evidente. Não há armas de fogo, confrontos corporais, xingamentos diretos. As redes sociais transformaram-se em arenas nas quais se digladiam opiniões divergentes, ideologias extremas, crenças diversas. Uns dizem que o mundo está muito chato e criaram dois neologismos infames pra definir os protestos e reclamações das minorias, principalmente da população negra. “Vitimismo” e “mimimi” são termos usados pejorativamente para desqualificar o sofrimento, aspirações e reivindicações de determinados grupos. Denúncias gravíssimas, como o assassinato de indígenas por garimpeiros ou o genocídio de jovens negros nas periferias do País inteiro. Estupros e outras tantas violências contra mulheres, espancamento e morte de homossexuais, tudo isso é minimizado e causa pouca ou nenhuma comoção. Quem se importa? Quem grita por essa gente? Por que essas vidas valem menos?

Não podem sair do padrão. Os corpos devem se adaptar. Os cabelos “rebeldes” não podem sobressair. O jeito de ser, vestir, falar, andar, dançar, acreditar, deve ser enquadrado numa lógica restritiva. O nascimento é negado, a existência é negada, o acesso é negado. Não tem voz nem vez. Quem os representa no governo? No Congresso e Assembleias, nas Câmaras municipais? Quem os representa no Judiciário, nas autarquias e nas polícias? Quem garante a cidadania? Quem protege suas vidas? Onde estão? Qual seu lugar nessa sociedade?

Acredite, precisamos de representatividade. É um meio de uma voz calada na multidão ser ouvida, seja branco, negro, pobre, rico, sertanejo, índio, cafuzo, pai de santo e até bandido.

No mais, deixo este indagamento!

Jefferson Procópio – Graduando em Direito com Extensão em Ciência Política

 

Da Redação/Portal Araçagi

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