Por Jefferson Procópio – Preconceito: Porque é tão difícil quebrar esta corrente?

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Muito mais do que uma simples palavra. Preconceito. Pré-conceito. Discriminação. Falta de valores. Os sinônimos são pausados mesmo, pois a sua concepção vai além do nome e de sua ação impactante. O nome é utilizado como um juízo de valor sem a menor razão objetiva e surge apenas como um fato intolerável sobre diversas áreas, entre elas, condição social, nacionalidade, etnia, maneira de falar, gesticular e vestir, e por aí vai… Aparece por intermédio geral da diferença entre as pessoas e suas opiniões distintas, causando um fato prejudicial, desencadeando intrigas, ódio e desentendimentos.

Mas antes de enveredar pelo tema em questão, precisamos saber etimologicamente o porquê desta palavra pequena ser tão forte. Ela é derivada de apenas duas palavras: pré – ideia de antes, anteriormente, antecedente, primário, precedente; e conceito – aquilo que se entende ou compreende em respeito de algo, derivado do latim conseptus, que se refere à construção ideal do ser ou de objetos apreensíveis cognitivamente. A ideia do preconceito refere-se, então, a um conceito formado de forma anterior ou antecedente à constatação dos fatos, utilizando-se de características julgadas universais, sendo atribuíveis a todos que se encaixam na categoria referida, ou implícitas, naturais ao objeto que é dirigida.

Esta nomenclatura e sua ideia, foi criada por sociólogos norte-americanos para explicar o fenômeno do racismo, apresentando assim, a forma que o preconceito contra os negros nos Estados Unidos serviu para embasar e despertar um sentimento de amor à pátria que se reforça em uma espécie de falsa ideia de superioridade branca.

Nossa identidade é a maneira com que nos vemos e somos vistos, nosso reconhecimento único e social de cada um. Esta identidade única, surge a partir de muitas experiências e elementos citados acima: geração, raça, gênero, orientação sexual, religião, classe, características físicas, gostos e preferências culturais, etnia, etc. Nesta “unicidade pessoal”, criamos uma noção alheia grande das outras pessoas também, criando uma interação social; a famosa alteridade pessoal. A construção da identidade de um sujeito passa pelo reconhecimento da alteridade: a noção do “eu” depende da noção do “outro”, minha identidade só existe e é construída em relação aos outros.

Devo, porém destacar, que os termos “discriminação” e “preconceito” não podem se confundir, mesmo que a discriminação tenha muitas vezes, sua origem no preconceito, mas, em termos gerais, a discriminação é um conceito muito mais amplo e dinâmico, pois envolve indivíduos e instituições, e o preconceito apenas pessoas.

Aqui no nosso gigante e desigual país, esta vertente encontra-se cada dia mais discutida, visto pela crescente violência no Brasil nas últimas décadas. Infelizmente ainda é um tema bastante polêmico para muitos, porém cada dia faz-se necessário inseri-lo nos temas mais abordados na pauta central dos assuntos atuais. O carro chefe do país é e sempre será a desigualdade social, e através dele, tem se gerado diversos tipos de crimes de ódio e aversão à isso. Em meio a isto, não seria errado afirmar que somente a lei poderá conter esses praticantes. E ela é bem explícita:

 Segundo a Lei n.º 7716 (1989):

Art. 1.º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

A pena para os que cometem atos associados ao preconceito é de reclusão de 2 a 5 anos.

Mesmo com a lei, há outras alternativas que podem ser utilizadas para reduzir esta postura intolerante, e dentre elas, existe a educação. Nos últimos anos, o sistema de ensino tem apresentado propostas educacionais, como por exemplo: a transversalidade. O tema transversal da “pluralidade cultural e orientação sexual” está pautado numa sociedade global, tolerante e democrática. Nessa perspectiva, as diferenças são vistas como uma riqueza cultural e não como um problema social.

Combater ou punir?

O preconceito e os preconceituosos não são novidades na história da humanidade. Eles sempre estiveram entre nós. Eles sempre se manifestaram de forma explícita ou sorrateira. Eles representam uma fatia importante desta sociedade doente. Como ele nasce nos grupos e se manifesta nas posturas individuais, só poderemos extingui-los com amor àqueles que os compõem nestes grupos. No entanto, as atitudes de mudança e de esclarecimento deverão usar a lógica de modificar a coletividade com atitudes capazes de atingir o grupo por inteiro. Se não houver um trabalho educativo, elucidativo e com capacidade de modificar as paixões subjacentes ao preconceito, ele crescerá cada vez mais. Desse modo, a conclusão será simples: um preconceituoso no passado e um preconceituoso pior no futuro. O preconceito aumentará, pois manteremos condicionamentos e comportamentos que confirmarão, erroneamente, os valores de julgamento daquilo que não aceitamos e, por conseguinte, que atuamos como atitude preconceituosa.

Para confrontar com algo tão poderoso como o preconceito, precisaremos atacar a sua estrutura histórica a fim de trazer uma nova perspectiva reflexiva sobre a matéria para os grupos e para a sociedade. Portanto, ao invés de simplesmente punirmos e nos afastarmos num ato de “lavar as mãos”, precisaremos, em busca de maior eficácia, nos aproximar da questão com posturas educativas. Para que a nova percepção social seja implantada minando o componente apaixonado do preconceito, será primordial a informação e a educação. Isto ocorrerá paulatinamente e não de um dia para o outro.

O processo de informação educativa não poderá ser elitizado, ou seja, as campanhas devem ter, principalmente, aqueles que sofrem com o preconceito. Se realizarmos campanhas, somente, com pessoas famosas e ilustres, poderemos não atingir os nossos objetivos por mais que elas também possam ser vítimas do preconceito. As histórias simples do cotidiano com suas vitórias na vida real são capazes de capilarizar mais do que relatos de celebridades que podem não demonstrar de maneira vivencial o drama da situação.

Como o processo é longo e lento, a paciência deverá imperar.

Jefferson Procópio – Graduando em Direito com Extensão em Ciência Política

 

Da Redação/Portal Araçagi

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